Como Roland Barthes defendia, a paz dos textos só se torna possível sobre a guerra das linguagens. Este blog pretende demonstrar como uma prática de tradução pode representar, dentro do espírito do PEN, a intersecção dos ideais da paz e da defesa dos direitos linguísticos.

As Roland Barthes sustained, the peace of texts only becomes possible upon the language war. This blog aims to show how a translation practice may represent, within the spirit of PEN, the intersection of the ideals of peace and of the defense of linguistic rights.

Comme soutenait Roland Barthes, la paix des textes ne devient possible que sur la base d’une guerre des langages. Ce blog a pour but montrer comment une pratique de traduction peut représenter, dans l’esprit du PEN, l’intersection des idéaux de paix et de défense des droits linguistiques.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O mal-estar com o Acordo Ortográfico de 1990

O mal-estar com o Acordo Ortográfico de 1990 
(na sequência da sessão de 9.1.2012 no Goethe-Institut)


A sessão teve uma dinâmica que só o entusiasmo e a raiva e a vontade de defender a pele da língua que é nossa, uma forma de energia viva e não de ergon que se funcionaliza, comercializa, retalha e manipula, podem dar. A biblioteca do GI estava cheia, nem havia cadeiras para todos aqueles que se preocupam com os livros que lêem, com o que os filhos aprendem nas escolas, com os letreiros (mal) escritos nas ruas, com revistas e jornais que soam de forma estranha. Trata-se, nem mais nem menos da modulação de uma língua em vias de quebrar amarras com as suas congéneres europeias para embarcar em falácias e quimeras de uma pretensa unificação lusófona, quando todos sabemos que o sabor e o encanto da diversidade é aquilo que nos mantém curiosos e vivos face à comunidade falante de um português. Esse sim que incorpora palavras e neologismos mas não corta letras para que ingleses, franceses, alemães, suecos e noruegueses cultos (entre outros europeus) continuem a poder ler traços gerais nas nossas publicações graças à corrente etimológica indoeuropeia comum. De raiz ST – estável, estaca. 

O PEN não pode deixar de defender a liberdade de expressão nem de abrigar sócios que pensem e escrevam de forma diferente. Mas o desafio da conflitualidade democrática obriga-nos a apresentar os melhores argumentos que tivermos e sobretudo a buscar plataformas onde possamos entender-nos, mesmo na dissonância. E obriga-nos, também por isso, a prosseguir com os debates. 

Um obrigada daqui à Maria Alzira Seixo, ao Rui Zink e ao Vasco Graça Moura por se terem disponibilizado para esta primeira ronda! 

T.S.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

Manifesto de Girona sobre os Direitos Linguísticos

MANIFESTO DE GIRONA SOBRE OS DIREITOS LINGUÍSTICOS

O PEN Internacional reúne escritores do mundo.
Há quinze anos, o Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional tornou pública, em Barcelona, a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. Hoje, o mesmo Comité, reunido em Girona, proclama um Manifesto com os dez princípios centrais da Declaração Universal.

1. A diversidade linguística é um património da humanidade que deve ser valorizado e protegido.
2. O respeito por todas as línguas e culturas é fundamental no processo de construção e manutenção do diálogo e da paz no mundo.
3. Cada pessoa aprende a falar no seio de uma comunidade que lhe dá vida, língua, cultura e identidade.
4. As diversas línguas e os diversos falares não são só instrumentos de comunicação; são também o meio em que os seres humanos crescem e as culturas se constroem.
5. Qualquer comunidade linguística tem direito a que a sua língua seja utilizada oficialmente no seu território.
6. O ensino escolar deve contribuir para prestigiar a língua falada pela comunidade linguística do território.
7. O conhecimento generalizado de diversas línguas por parte dos cidadãos é um objectivo desejável, porque favorece a empatia e a abertura intelectual, ao mesmo tempo que contribui para um conhecimento mais profundo da língua própria.
8. A tradução de textos – particularmente dos grandes textos das diversas culturas – representa um elemento muito importante no necessário processo de maior conhecimento e respeito entre os seres humanos.
9. Os meios de comunicação são amplificadores privilegiados quando se trata de tornar efectiva a diversidade linguística e de prestigiá-la com competência e rigor.
10. O direito ao uso e protecção da língua própria deve ser reconhecido pelas Nações Unidas como um dos direitos humanos fundamentais.

Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional
Girona, Maio de 2011

Presidente do Comité: Josep-Maria Terricabras (josepm.terricabras@udg.edu).

Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011




Yang Lian


A SUNFLOWER SEED’S LINES OF NEGATION

For Ai Weiwei



unimaginable that Du Fu’s little boat was once

moored on this ceramic river

I don’t know the moonlight see only the poem’s clarity

attenuated line by line to a non-person

to the symbols discussing and avoiding everything

I’m no symbol a sun dying under the sunflower seed’s hard shell

nor is the sun snow-white collapsed meat of children

nor have I disappeared daybreak’s horizon impossibly

forgot that pain bones like glass sliced by glass

I didn't scream, so must scream at each first light

an earthquake never stands still

no need to suffocate the dead planting rows of fences to the ends of the earth

handcuffing ever more shameful silence so I don’t fear

the young policewoman interrogating my naked body

it was formed by fire no different to yours

knowing no other way to shatter but a hundred millions shatterings within myself

falling into no soil only into the river that can’t flow

that cares nothing for the yellow flower within the stone having to go on

to hold back like a drop of Du Fu’s old tears

refusing to let the poem sink into dead indifferent beauty



Translated by Brian Holton & William N Herbert

London, 30th of May, 2011





à Ai Weiwei





L’impensable : le frêle esquif de Du Fu

jadis aurait mouillé sur les eaux de céramique du fleuve

je ne sais rien du clair de lune ne vois que la clarté du poème

s’atténuant de vers en vers jusqu’à l’impersonnel

jusqu’au symbole discourant de tout mais éludant tout

je ne suis pas symbole le soleil mourant sous la dure écale de la graine

n’en est pas un non plus cette chair de neige affaissée des enfants

n’a pas disparu davantage l’horizon au point du jour ne saurait

oublier cette souffrance coupés par le verre les os semblent de verre

il est trop tard pour crier aussi je ne peux que crier à chaque nouvelle aurore

une secousse tellurique ne saurait s’arrêter

l’asphyxie ne vient pas de la mort les barrières plantées aux confins du ciel

menottent un silence plus insoutenable encore aussi je n’ai pas peur

de l’observation minutieuse de mon corps nu par la jeune policière

il a pris forme dans le feu ne différant en rien du tien

ne connaissant d’autre façon d’être pulvérisé que ces approfondissements infinis de soi

ne tombant dans la boue mais dans le fleuve impuissant à couler

sans souci du jaune d’or au cœur de la pierre obligé de continuer

à retenir ce quelque chose comme une larme du vieux Du Fu

refusant que ce poème ne verse dans une beauté froide au silence de mort




AS LINHAS (FRASES) DE NEGAÇÃO DE UMA SEMENTE DE GIRASSOL

Para Ai Weiwei


Inimaginável que o barquinho de Du Fu tenha estado

um dia amarrado a este rio de cerâmica

nada sei do luar vejo apenas a claridade do poema

atenuada linha a linha …para o impessoal

para os símbolos tudo questionando e evitando

não sou um símbolo um sol morrendo sob a dura concha da semente do girassol

nem o sol é a carne colapsada de uma criança branca como a neve

nem desapareci no amanhecer do horizonte quando é impossível

esquecer aquela dor os ossos como vidro cortado pelo vidro

não gritei, mas é preciso gritar em cada primeira luz

um terramoto nunca termina

não é preciso sufocar os mortos plantando fiadas de sebes nos confins da terra

algemando ainda mais o vergonhoso silêncio por isso não receio

a jovem polícia interrogando o meu corpo nu

é o fogo que o forma não é diferente do teu

não sei outra maneira de romper senão rompendo infinitamente dentro de mim

não caindo em solo algum apenas no rio que não pode fluir

descurando a flor amarela dentro da pedra tendo que continuar

que recuar como uma gota das lágrimas de Du Fu

recusando-se a deixar que o poema se afunde na verdade indiferente dos mortos.


Traduzido da versão inglesa por Maria do Sameiro Barroso


Lisboa, 14 de Julho de 2011







Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Acta del Encuentro del Comité de Traducción Y Derechos Linguisticos

El Programa del encuentro (12-14.5.2011) es el siguiente:

1. Primera sesión
a) Apertura de la Asamblea e informe del presidente
b) Primer debate: «Protección de la libertad de expresión y transparencia informativa: el caso Wikileaks y otros».

2. Segunda sesión
Segundo debate: «La lengua vehicular en la escuela en una situación de plurilingüismo».

3. Tercera sesión
a) Estudio y discusión del proyecto de Manifiesto sobre Derechos Lingüísticos
b) Aprobación del proyecto
c) Propuestas

La sesión de apertura contó con varios parlamentos: Carme Arenas, presidenta del PEN Catalán, dio la bienvenida a Girona a los asistentes; Josep-Maria Terricabras, presidente del Comité, presentó el programa de trabajo a desarrollar durante los dos días; John Ralston Saul, presidente del PEN Internacional, aludió a la tarea del PEN Internacional y subrayó la importancia del Comité de Traducción y Derechos Lingüísticos, un Comité que tenía que adquirir cada día mayor proyección y mayor relevancia en el interior del PEN. Finalmente, la Ilustrísima Sra. Anna Pagans, alcaldesa de Girona, se dirigió a los asistentes con un discurso en el que habló especialmente de la ciudad de Girona y del edificio histórico de La Mercè donde se llevaba a cabo el encuentro.

Después del acto de apertura se inició la primera sesión de trabajo. El presidente del Comité se dirigió a los delegados con una reflexión que consistió básicamente en cuatro puntos: a) la urgencia de disponer de una lista de delegados estables de los Centros PEN en dicho Comité; b) la urgencia de disponer de un sitio web en el que poder colgar textos, proyectos, ideas y convocatorias, lo que facilitaría el trabajo del Comité y lo cohesionaría; c) la presentación del primer borrador del Manifiesto sobre Derechos Lingüísticos que todos los participantes habían recibido y que recomendó que fuese leído y reflexionado, a fin de poderlo debatir en la sesión final del encuentro; d) la importancia de reforzar los vínculos no sólo entre este Comité y otros Comités del PEN, sino también con otros organismos e instituciones que trabajan en una dirección parecida o complementaria; en conexión con esto, el presidente lamentó la falta de recursos económicos del Comité que, en su opinión, no puede depender sólo de la ayuda que le preste el PEN de pertenencia del presidente, sino que debería disponer de algunos recursos propios, facilitados por el PEN Internacional.
Todos los puntos de la intervención del presidente fueron seguidos por vivas y útiles discusiones que ayudaron a tomar consciencia de los problemas mencionados y que animaron a buscarles soluciones pronto.
Después de una pausa, se procedió al primer debate sobre «Protección de la libertad de expresión y transparencia informativa: el caso Wikileaks y otros». Con la moderación de Maria Joâo Reynaud, del PEN Portugués, intervinieron los ponentes siguientes:
Xavier Rubert de Ventós (PEN Catalán) abordó cuestiones conceptuales sobre qué significa libertad de expresión, mostrando sus posibilidades y límites;
Rhodah Mashavave (Zimbabue) expuso las dificultades principales con las que se enfrenta la libertad de expresión y de información en su país;
Raffaella Salierno (PEN Catalán) excusó la presencia de Omar Mestiri (PEN Tunecino), que debía hacer una ponencia pero que no pudo desplazarse a Girona porque no obtuvo a tiempo el visado para el viaje. Este caso mostró precisamente las dificultades, a menudo burocráticas o de apariencia burocrática, con las que se encuentran muchos escritores para viajar libremente por el mundo.
El debate fue extraordinariamente vivo y se concentró sobre todo en las cuestiones más conceptuales, más básicas, planteadas por Xavier Rubert de Ventós.
La segunda sesión de trabajo consistió en otro debate sobre «La lengua vehicular en la escuela en una situación de plurilingüismo». Con la moderación de Gustav Murin (PEN Eslovaco), intervinieron los ponentes siguientes:
Patrícia Gabancho (PEN Catalán) expuso el éxito del modelo de enseñanza catalán, basado en un sistema único de enseñanza que consigue que, al final del período escolar, todos los alumnos hayan aprendido muy correctamente tanto el catalán como el español; el sistema a menudo es atacado por algunos grupos que querrían imponer un sistema preferentemente español, pero en cambio ha obtenido el elogio y el reconocimiento explícitos de todos los organismos internacionales;
Paul Bilbao presentó un sistema bien diferente, el del País Vasco, que ofrece tres modelos: el aprendizaje preferentemente en euskera, el aprendizaje preferentemente en español, y una tercera posibilidad de enseñanza mixta. En todo caso, el objetivo es que los alumnos acaben la escuela siendo hablantes de euskera multilingües (euskera, español, inglés), que desarrollen sus capacidades multilingües con el euskera como lengua básica. Las escuelas vascas (ikastolas) tienen un prestigio bien ganado y son las escogidas mayoritariamente por la población;
El Kaissa Ould Braham (PEN Argelino) mostró el dominio del francés y del árabe en la enseñanza escolar de su país, con el abandono o el menosprecio de la lengua amaziga que, a fin de cuentas, es la lengua materna de una grandísima parte de la población.
Las exposiciones de los ponentes dieron paso a un debate muy vivo, sobre todo porque los asistentes comparaban estas experiencias con algunas bien diversas en sus países de origen.
La tercera sesión, en la última mañana de trabajo, se centró en el estudio y discusión del proyecto de Manifiesto sobre Derechos Lingüísticos. Como el día antes algunos delegados ya habían hecho observaciones sobre el primer proyecto entregado al comienzo del encuentro, los asistentes recibieron un segundo borrador, que incluía algunas enmiendas. En el debate se constató el acuerdo unánime sobre el acierto básico de la propuesta, que pretende recoger en diez afirmaciones fundamentales la «Declaración Universal de Derechos Lingüísticos», aprobada en Barcelona quince años antes, concretamente el 6 de junio de 1996. El debate fue intenso. En todo momento quiso preservar el contenido del Manifiesto pero también buscó las formulaciones más acertadas para hacerlo comprensible y atractivo.
Al final de la sesión, se aprobó, con satisfacción general, el «Manifiesto de Girona», que será presentado, para su aprobación, en la próxima Asamblea General del PEN, que se celebrará en Belgrado el próximo mes de septiembre. El texto se adjunta a esta Acta.
Para preparar el recorrido que tiene que hacer el documento hasta Belgrado y más allá, se nombró a un pequeño grupo formado por las personas siguientes: Émile Martel, Frank Geary, Kaiser A. Özhun, Patrícia Gabancho y Josep-Maria Terricabras.
En el turno final, el PEN Catalán presentó una resolución de condena del Gobierno de la Comunidad Valenciana, por su persecución a Acció Cultural, que durante años ha mantenido la presencia de Televisió de Catalunya (TV3) en la Comunidad Valenciana, con la intención de facilitar a los valencianos el acceso, en su lengua, a un medio de comunicación de calidad. El Gobierno ha sancionado a la entidad con multas y finalmente le ha cerrado los repetidores de televisión. La resolución, que condena esta persecución a la libertad de expresión, fue aprobada por unanimidad. El texto se adjunta a esta Acta.

Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Liu Xiaobo’s Poems - Chinese, English, Portuguese

狱中的小耗子——给小霞



一只小耗子爬过铁条

在窗台上来回走动

剥落的墙在看它

吸饱了血的蚊子在看它

它也吸引了天上的月亮

银色的投影似乎在飞

一种罕见的美



今晚的耗子很绅士

不吃不喝不磨牙

瞪着那双贼亮的眼睛

在月光下散步



晓波1999.5.26



Translated by Yu ZHANG

Edited by Bonny Cassidy



A Little Mouse in Prison



A little mouse crept through the iron bars

Pacing forth and back on the windowsill

The peeled walls are watching it

And so are the mosquitoes full of blood

It also attracts the moon in the sky

So that its silver projection seems flying

What a rare beauty



The mouse in this evening is rather a gentleman

Not eating, drinking, or chattering its teeth

But staring with its eyes bright as a thief

And taking a walk in the moonlight



1999.5.26





Um Ratinho na Prisão



Um ratinho rastejou pelas barras de ferro

Andou para a frente e para trás no parapeito da janela

As paredes nuas observam-no

Assim como os mosquitos cheios de sangue

Também atrai a lua no céu

O seu reflexo de prata parece pairar

Que beleza rara



O rato esta noite mais parece um cavalheiro

Não comendo nem bebendo, ou rangendo os dentes

Mas olhando fixamente com olhos brilhantes como um ladrão

Dando um passeio ao luar







渴望逃离——给妻



抛开虚拟的殉难

我渴望躺在你的脚下

这是除了与死亡纠缠的

唯一义务

也是心如明镜时

持久的幸福



你的脚趾不会折断

一只猫紧跟在身后

真想替你赶走它

它转过头

向我伸出利爪

蓝眼睛的深处

似乎有一座监狱

如果我盲目跨出

哪怕仅仅一步

就会变成一条鱼



晓波1999.8.12





Longing to Escape



To put aside the fictitious martyrdom

I am longing for lying on your feet

Beside being entangled with death

This is my sole obligation

And also an everlasting happiness

when my heart is clear as a mirror



Your toes could not be broken

As a cat was following you behind

I would really like to drive it away

It turned around to me

And outstretched its claws

In the depth of its blue eyes

There appeared a prison

If I stepped out blindly

Even just a step

I would be turned into a fish



1999.8.12



Ansiando Fugir



Para afastar o martírio fictício

Anseio deitar-me a teus pés

Enredado com a morte

Esta é a minha única obrigação

Bem como uma felicidade duradoura

Quando o coração é claro como um espelho



Os dedos dos teus pés não se poderiam partir

Quando um gato foi atrás de ti

Na realidade gostarias de o afastar

Ele voltou-se para mim

Estendeu as garras

Na profundidade dos seus olhos azuis

Uma prisão surgiu

Se eu avançasse cegamente

Um passo que fosse

Seria transformado num peixe



Tradução versão inglesa:
Maria do Sameiro Barroso

Sábado, 19 de Março de 2011

LIU XIAOBO




You Wait for Me with Dust
- for my wife, who waits every day

nothing remains in your name, nothing
but to wait for me, together with the dust of our home
those layers
amassed, overflowing, in every corner
you're unwilling to pull apart the curtains
and let the light disturb their stillness
over the bookshelf, the handwritten label is covered in dust
on the carpet the pattern inhales the dust
when you are writing a letter to me
and love that the nib’s tipped with dust
my eyes are stabbed with pain
you sit there all day long
not daring to move
for fear that your footsteps will trample the dust
you try to control your breathing
using silence to write a story.
At times like this
the suffocating dust
offers the only loyalty
your vision, breath and time
permeate the dust
in the depth of your soul
the tomb inch by inch is
piled up from the feet
reaching the chest
reaching the throat
you know that the tomb
is your best resting place
waiting for me there
with no source of fear or alarm
this is why you prefer dust
in the dark, in calm suffocation
waiting, waiting for me
you wait for me with dust
refusing the sunlight and movement of air
just let the dust bury you altogether
just let yourself fall asleep in the dust
until I return
and you come awake
wiping the dust from your skin and your soul.
What a miracle – back from the dead.

9 de Abril de 1999 (Trad. Zheng Danyi, Shirley Lee e Martin Alexander)




Aguardas-Me com Pó -
Para a minha mulher que todos os dias espera


nada se conserva no teu nome, nada
excepto esperares por mim com o pó da nossa casa
essas camadas
amontoadas, espalhadas por todo o lado
já não consegues correr as cortinas
para que a luz perturbe a sua calma
na estante a etiqueta escrita à mão está coberta de pó
o desenho da carpete inala o pó
quando me escreves uma carta
e o amor que a ponta metálica da caneta cobriu de pó
os meus olhos são perfurados pela dor
ficas sentada o dia todo
sem ousares mover-te
com medo que os teus passos pisem o pó
tentas controlar a respiração
utilizando o silêncio para escrever uma história.
Em momentos como este
o pó sufocante
oferece a única lealdade
a tua visão, respiração e tempo
atravessam o pó
nas profundezas da tua alma
o túmulo pouco a pouco
coberto desde o fundo
chegando ao peito
chegando à garganta
sabes que o túmulo
é o melhor lugares para ficares
à minha espera
sem nada que te amedronte ou alarme
é por isso que preferes o pó
na escuridão, na espera
calma e sufocante
à espera, à minha espera
esperas por mim com pó
recusando a luz do sol e o movimento do ar
deixa que o pó te enterre até ao fim
deixa-te adormecer no meio do pó
até que eu regresse
e acordada venhas
limpar o pó da pele e da alma.
Que milagre – regressando dos mortos.

9 de Abril de 1999 (Trad. Zheng Danyi, Shirley Lee e Martin Alexander)
(Trad. versão inglesa: Maria do Sameiro Barroso)

Quinta-feira, 10 de Março de 2011

A palavra nómada / The nomade word / La parole nomade / La palabra nomada

ASSUMPCIÓ FORCADA

SOPA DE LLETRES

Potser en la sopa de lletres
hi havia un poema
que mai has llegit.

Potser has menjat
en diferents llengües
la paraula tristesa.

Potser eren mots
secrets que en transformar-se
han donat energia al teu cos.

Però avui la teva sang
és com un brou calent
on el cor troba
la veu del diàleg.

SOPA DE LETRAS

Quiza en la sopa de letras
había un poema
que nunca has leído.

Quizá hás comido
en diferentes lenguas
la palabra tristeza.

Quizá eran palabras
secretas que al transformarse
han dado energía a tu cuerpo.


El caso es que hoy tu sangre
es como un caldo caliente
en que el corazón encuentra
la voz del diálogo.

Assumpció Forcada, Prisma, edição bilingue catalão-castelhano, Barcelona: La Busca Ediciones, 2005, pp. 90-91.


SOPA DE LETRAS



Talvez na sopa de letras
houvesse um poema
que nunca tenhas lido.

Talvez tenhas comido
em diferentes línguas
a palavra tristeza.

Talvez fossem palavras
secretas que ao transformar-se
ao teu corpo transmitiram energia.

Mas hoje o teu sangue
é como um caldo quente
onde o coração encontra
a voz do diálogo.

Tradução:
Maria do Sameiro Barroso

IVO FRBEŽAR

Hablaré cada vez más suave

Hablaré cada vez más suave
hasta que bisbisearé
tal el pecador
en confesión

murmuraré cada vez más suave
hasta que no sussurre
tal las hojas
al vento

sussurrraré cada vez más suave
hasta que mi voz no parezca
la voz de la arena
en las dunas del mar

y oirán
solo los que
esperan
y escuchan

(tradução castelhana de Dragica Novak Stokeij)


Falarei cada vez mais suave
até segredar
como o pecador
em confissão

murmurarei cada vez mais suave
até que nada sussurre
como as folhas
ao vento

sussurrarei cada vez mais suave
até que a minha voz não pareça
senão da voz da areia
nas dunas do mar

e
e ouvirão
apenas os que
esperam
e escutam.

Tradução:
Maria do Sameiro Barroso